Da direita no discurso, do compadrio na suspeita? A vaga no TJMS coloca Riedel sob os holofotes
A prerrogativa constitucional do governador é legítima, mas a percepção de que nomes próximos ao poder possam ser favorecidos reacende o debate sobre independência institucional e a influência política nas nomeações
Há um velho ditado na política brasileira: quando o roteiro parece pronto antes da estreia da peça, o público começa a desconfiar que os aplausos já foram ensaiados.
A disputa pela vaga no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, aberta com a aposentadoria antecipada de um desembargador, deveria ser um espetáculo de mérito, currículo e independência. Em vez disso, para muitos observadores, o que se vê é um ambiente carregado de especulações sobre favoritismo e proximidade política.
É importante registrar: não há prova de irregularidade, nem qualquer afirmação de que o resultado esteja decidido. Mas também é verdade que, quando os corredores do poder parecem mais movimentados do que as salas de estudo jurídico, a opinião pública inevitavelmente levanta as sobrancelhas.
A Constituição entrega ao governador a palavra final. Isso é fato. O que está em discussão é outra coisa: será que esse modelo realmente afasta a influência política ou apenas a reveste de formalidades elegantes?
A possível escolha de alguém que ocupava um cargo de extrema confiança do Executivo faz surgir uma pergunta incômoda. Não seria essa mais uma demonstração de que, no Brasil, a proximidade com o poder frequentemente se torna um ativo tão valioso quanto um currículo impecável?
Curiosamente, muitos dos que criticavam governos de esquerda por prestigiarem pessoas próximas em nomeações para postos estratégicos agora observam situação semelhante em âmbito estadual e se perguntam: mudou a filosofia ou apenas mudou o endereço do gabinete?
Governos passam, discursos mudam e slogans eleitorais se renovam. Mas a tentação de cercar posições-chave com nomes de confiança parece atravessar ideologias com uma facilidade impressionante.
Ninguém está dizendo que exista submissão do Judiciário ao Executivo. Seria uma acusação grave e sem base comprovada. O que se pode dizer é que episódios como este alimentam uma percepção desconfortável: a de que o poder político gosta de manter por perto pessoas em quem confia, inclusive quando a sociedade espera enxergar a mais absoluta distância institucional.
E talvez seja justamente essa a maior ironia. Quanto mais o processo segue os trilhos da legalidade, maior pode ser a cobrança por uma aparência inequívoca de independência. Afinal, confiança pública não se decreta; conquista-se.
No fim das contas, permanece uma pergunta que dificilmente será respondida por notas oficiais ou discursos protocolares: estamos assistindo apenas ao funcionamento normal das instituições ou a mais um capítulo da velha tradição brasileira em que as amizades do poder parecem sempre chegar alguns passos à frente da fila?
Em uma democracia madura, questionar esse tipo de situação não é atacar instituições. Pelo contrário: é lembrar que a credibilidade do Judiciário depende não apenas de sua independência efetiva, mas também da convicção da sociedade de que suas portas permanecem abertas ao mérito — e fechadas à impressão de favorecimento político.

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