Do discurso à conveniência? Oshiro saiu da Rede e agora tenta vestir a camisa do Novo
Candidato ao Senado pelo Novo já esteve no campo político da Rede e agora aposta no discurso liberal para conquistar o eleitorado de direita de Mato Grosso do Sul
Rede lançou ontem a noite o nome de Roberto Oshiro para disputa municipal da Capital (Foto: Reprodução - Facebook) Em ano eleitoral, a política brasileira costuma produzir algumas cenas que merecem mais atenção do que os santinhos distribuídos nas ruas. Uma delas é a transformação repentina de posicionamentos, partidos e discursos — especialmente quando o eleitorado-alvo muda.
É nesse terreno que aparece o candidato ao Senado Roberto Oshiro, hoje no Partido Novo, legenda que se apresenta como defensora da liberdade econômica, redução do Estado e combate ao aumento de impostos. O problema é que o currículo político de Oshiro registra uma passagem bastante diferente: em 2016, ele foi lançado como candidato pela Rede Sustentabilidade, partido criado sob uma plataforma política associada à centro-esquerda e ao progressismo.
Naquele ano, Oshiro chegou a ter o nome oficializado pela Rede para disputar a Prefeitura de Campo Grande. Depois, com a composição política envolvendo o PV, passou a integrar a chapa de Marcelo Bluma como candidato a vice, mas desistiu da disputa antes do registro definitivo da candidatura.
Agora, quase uma década depois, o eleitor encontra outro Roberto Oshiro nas propagandas políticas: o advogado tributarista que fala em liberdade econômica, redução da máquina pública, combate à corrupção, segurança jurídica, agronegócio e endurecimento contra o crime.
Em entrevista concedida em maio deste ano, o próprio Oshiro explicou sua relação com o Novo dizendo que participou do partido desde a fundação e que estaria “voltando” à legenda.
E é justamente aí que começa a discussão que o eleitor precisa fazer.
Afinal, qual é o verdadeiro posicionamento político de Oshiro?
A pergunta não é se um cidadão pode mudar de partido. Evidentemente pode.
Também não é ilegal mudar de opinião, mudar de legenda ou mudar de campo político.
A questão é outra: quando um candidato pede o voto do eleitor de direita apresentando-se como representante da liberdade econômica e da renovação política, é legítimo perguntar qual foi sua trajetória política e por que hoje seu discurso é tão diferente daquele associado à legenda pela qual entrou na disputa eleitoral em 2016.
A Rede de 2016 e o Novo de 2026 ocupam espaços políticos bastante diferentes.
De um lado, a Rede construiu sua identidade em torno de pautas ambientais, sociais e progressistas, enquanto o Novo consolidou sua marca em torno do liberalismo econômico, redução do Estado e defesa de uma agenda mais liberal na economia.
Oshiro passou por esse caminho.
E o eleitor tem todo o direito de perguntar: mudou o político, mudou a ideologia ou mudou simplesmente o ambiente eleitoral?
De candidato da Rede a nome da direita
A transformação ganha ainda mais relevância porque o próprio candidato hoje procura associar sua candidatura à direita e ao setor produtivo.
Em entrevista recente, Oshiro afirmou que sua candidatura ao Senado nasceu de uma articulação envolvendo lideranças empresariais, setor produtivo e pessoas da direita. Também apresentou a liberdade econômica como uma das principais bandeiras de sua candidatura.
Em outra entrevista, afirmou que o Novo combina com sua visão porque defende liberdade econômica, combate à corrupção, redução de impostos e redução da máquina pública.
Tudo muito alinhado com o eleitorado que hoje pretende conquistar.
Mas existe uma pergunta incômoda — e absolutamente legítima:
onde estava esse discurso liberal quando Oshiro estava construindo sua trajetória eleitoral pela Rede?
A resposta cabe ao próprio candidato.
O problema não é mudar de partido
É importante deixar claro: não há irregularidade simplesmente em ter passado pela Rede e hoje estar no Novo.
O problema jornalístico e político está na coerência.
Se Oshiro mudou de posição ao longo dos anos, deveria explicar claramente ao eleitor quais foram as razões.
Se sempre teve as mesmas convicções e apenas esteve em outro partido por estratégia eleitoral, também seria interessante explicar.
E se sua passagem pela Rede representou apenas uma etapa de sua trajetória política, o eleitor também merece saber o que ele aprendeu naquele período e quais posições daquela época ainda permanecem.
Porque candidatura ao Senado não é concurso para escolher o melhor currículo profissional.
É uma escolha política.
E, para ocupar uma das cadeiras que representam Mato Grosso do Sul em Brasília, coerência política também deveria entrar no currículo.
A nova embalagem
Oshiro possui credenciais profissionais respeitáveis: é advogado tributarista, empresário e possui trajetória ligada ao setor produtivo. Em 2024, integrou como vice a chapa de Rose Modesto na disputa pela Prefeitura de Campo Grande, que chegou ao segundo turno. Em 2026, decidiu disputar o Senado pelo Novo.
O movimento é eleitoralmente compreensível.
O Novo oferece uma marca muito mais próxima do discurso que Oshiro apresenta atualmente.
E, em Mato Grosso do Sul, onde o eleitorado de direita possui peso significativo, a legenda também pode facilitar a construção dessa imagem.
Mas existe uma diferença entre mudar de legenda e reescrever a própria história política.
A história continua sendo a mesma.
Em 2016, Oshiro estava na Rede.
Em 2026, está no Novo.
Agora cabe ao candidato explicar ao eleitor o que mudou nesses dez anos.
O eleitor não precisa tratar mudança partidária como pecado. Política é dinâmica e pessoas podem amadurecer, mudar de opinião e rever posições.
Mas quem se apresenta como “novo” precisa aceitar uma regra simples: quanto maior o discurso de renovação, maior deve ser a disposição para explicar o passado.
Roberto Oshiro tem experiência profissional, conhece o setor empresarial e já participou de uma eleição majoritária competitiva. Isso é fato.
Mas também é fato que sua trajetória política passou pela Rede antes de chegar ao Novo.
Portanto, antes de comprar o discurso pronto de “liberdade econômica”, “nova política” e “renovação”, o eleitor deveria fazer uma pergunta simples ao candidato:
O que mudou: o partido, o discurso ou as convicções?
Porque trocar de legenda é permitido.
O que não deveria mudar conforme a conveniência eleitoral é a coerência.
COMENTÁRIOS