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Campo Grande,11/08/2026

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Soraya vira alvo de narrativa política, mas R$ 65 milhões em emendas não provam “troca de favores”

Cronologia pode levantar questionamentos, mas transformar empenho de emendas em prova de acordo político exige algo que, até agora, não apareceu: evidências concretas


Soraya vira alvo de narrativa política, mas R$ 65 milhões em emendas não provam “troca de favores” imagem da rede social @sorayathronicke

A política sul-mato-grossense entrou novamente no terreno das interpretações. A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) passou a ser alvo de críticas após a divulgação de que R$ 65,29 milhões em emendas parlamentares indicadas por ela foram empenhados pelo governo federal depois de 27 de março, data em que a parlamentar, ao lado do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), apresentou à Polícia Federal uma denúncia envolvendo o deputado Alfredo Gaspar.

A própria reportagem que levantou o caso reconhece expressamente que não há, até o momento, evidência de que o empenho das emendas tenha sido uma contrapartida pela atuação política de Soraya. A coincidência temporal, isoladamente, não comprova a existência de um acordo.

E aqui está o ponto que precisa ser colocado na mesa.

Empenho não é pagamento.

O empenho é uma etapa da execução orçamentária na qual o governo reserva o recurso para determinada despesa. O pagamento acontece posteriormente, após o cumprimento das demais fases previstas na legislação. Portanto, apresentar os R$ 65,29 milhões como se fossem R$ 65 milhões depositados diretamente na conta da senadora é, no mínimo, uma simplificação grosseira do funcionamento do orçamento público.

Mais do que isso: emendas parlamentares não surgem por vontade exclusiva do Palácio do Planalto. Elas fazem parte do processo orçamentário e, especialmente no caso das emendas de execução obrigatória, possuem regras próprias de execução.

A própria Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 estabeleceu prazo para o Executivo pagar parcela das emendas parlamentares de execução obrigatória. A medida foi resultado de uma negociação institucional entre Congresso e governo.

O calendário eleitoral também precisa entrar na conta

Há, sim, uma questão política legítima a ser discutida.

Soraya mudou de campo político. Eleita em 2018 em uma onda eleitoral fortemente associada a Jair Bolsonaro, a senadora hoje está no PSB e disputa a reeleição dentro de um arco político que inclui o presidente Lula. Essa transformação é pública e não pode ser ignorada pelo eleitor.

Mas uma coisa é discutir a mudança de posicionamento político da senadora. Outra, completamente diferente, é afirmar ou insinuar que recursos orçamentários foram liberados como pagamento por uma determinada atuação.

Para sustentar uma acusação desse tamanho seriam necessários documentos, mensagens, registros de negociação, depoimentos ou outros elementos que estabelecessem o vínculo entre os fatos.

Até aqui, essa ligação não foi demonstrada.

E a própria reportagem original reconhece essa limitação.

Soraya pode e deve explicar os números

Isso não significa que Soraya esteja acima de questionamentos.

Muito pelo contrário.

Se 96,31% dos empenhos registrados para suas emendas em 2026 ocorreram depois de 27 de março, como apontado pelo levantamento, a senadora tem todo o direito — e politicamente seria recomendável — explicar ao eleitor como ocorreu a execução desses recursos, quais municípios ou instituições foram beneficiados e qual foi o caminho administrativo percorrido pelas indicações.

Transparência não deveria assustar nenhum parlamentar.

O mesmo vale para o governo federal. Se os recursos seguiram os critérios legais e administrativos previstos no orçamento, cabe ao Executivo apresentar os dados e explicar a execução.

O que não se pode fazer é transformar uma sequência cronológica em sentença.

A defesa da senadora passa pelo direito à presunção de responsabilidade, não pela blindagem

Soraya também precisa responder aos questionamentos relacionados à denúncia apresentada contra Alfredo Gaspar. O caso é grave e deve ser investigado pelas autoridades competentes.

Mas é importante distinguir três coisas: a denúncia apresentada, as investigações sobre sua origem e qualquer eventual acusação de que a parlamentar tenha participado de uma suposta articulação política.

São situações diferentes.

O fato de o Supremo Tribunal Federal ter determinado que Soraya apresente informações adicionais relacionadas ao caso também não significa, por si só, que ela tenha sido considerada culpada ou integrante de qualquer eventual esquema. A própria reportagem registra que a decisão não representa acusação contra a senadora por participação na suposta fabricação da denúncia.

O episódio revela uma velha doença da política brasileira: a facilidade com que números verdadeiros são utilizados para construir conclusões que os próprios números não conseguem sustentar.

R$ 65,29 milhões em empenhos é um dado que merece investigação e transparência. A coincidência temporal merece explicação. A mudança de posicionamento político de Soraya também merece ser debatida pelo eleitor.

Mas daí a concluir que houve “compra” de apoio político há uma distância enorme.

O eleitor de Mato Grosso do Sul não precisa de versões prontas, nem de narrativas fabricadas para favorecer um lado ou destruir outro. Precisa de documentos, datas, valores, beneficiários e provas.

Se houve irregularidade, que apareçam as provas e os responsáveis sejam cobrados. Se não houve, que a senadora tenha o direito de não ser condenada politicamente apenas por uma coincidência de calendário.

No fim das contas, a pergunta mais importante não é apenas por que os R$ 65 milhões foram empenhados depois de 27 de março.

A pergunta correta é: houve alguma irregularidade na execução dessas emendas?

Se a resposta for não, o debate deve voltar para a política.

Se a resposta for sim, que os órgãos de controle apontem exatamente onde está o problema.

Porque em democracia, suspeita pode iniciar uma investigação. Mas somente prova pode sustentar uma condenação.




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